terça-feira, 5 de agosto de 2014

Um lugar de costume

Essa coisa de sonhos.

Costumo sonhar muitas vezes em mesmos lugares. No sonho eu identifico  decido e me certifico que já conheço.
Às vezes sonho igual e parece um dejà vu.
Tem vezes que procuro o lugar.

Existe uma praia que sempre vou e que nesta mesma praia eu decido me afastar para um lugar que me faz sentir um bem muito grande. Vou caminhando até chegar ao mais confortável da alma.

Já ouvi pessoas falando comigo, que vinham todas as noites. Pessoas totalmente não lembradas e que nunca vi nessa vida.

Às vezes posso escolher dentro do sono o sonho que quero. É bom decidir o lugar. Mas não é só no sonho que tenho a sensação de dejàvu. Percebo que fazemos muitas coisas que vão se repetindo. Quanto mais envelheço, mais repito situações e também identifico-as.

A vida tem muito de repetição e isso é bem normal. Ando me acostumando...

domingo, 3 de agosto de 2014

Um pouco de Fernando Pessoa

APOSTILA (11-4-1928)

Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha...
O trabalho honesto e superior...
O trabalho à Virgílio, à Mílton...
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos - nem mais nem menos -
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)...
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos -
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo...
Sim, verbalismo...
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça...
Não ter um acto indefinido nem factício...

Não ter um movimento desconforme com propósitos...
Boas maneiras da alma...
Elegância de persistir...

Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

(Passageira que viajaras tantas vezes no mesmo compartimento comigo
No comboio suburbano,
Chegaste a interessar-te por mim?
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter?
Qual foi a vida que houve nisto? Que foi isto a vida?)

Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!...
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.
Álvaro de Campos

Será falsa a minha fama?

Será falsa a minha fama?


Existe um único corpo
Desnudo
Exposto
Miséria e corte
O cru
Às margens
Águas sujas que banham as margens do homem
A lama que veste
Ao passo que enoja e enobrece
Um verdadeiro Cão sem plumas
O homem em estado bruto, um rio a velar
Vestígios de um lodo opaco

Sutilezas de uma falsa imundície

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Mexer no funcionamento natural das coisas,
é mesmo ilusionismo.

Deixe o mundo avisado
faça tudo cedo
e fique horas deitada no tempo
com tempo de sobra
esqueça o passado
de-sa-pe-gue gradualmente

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Capítulo IV

Capítulo IV

“Flores nos campos de aço...”

Mas não como antes.

Meu tempo foi comprimido a um instante incapaz do infinito.

Despenquei do oitavo andar e nada me foi dito.

Eu piso nos campos de aço.

Flores e espinhos; pétalas no rastro do caminho deixaste para mim.



(Del fuego)

terça-feira, 29 de julho de 2014

Nem tudo é amenidades, nem irmandade.





Ela tem a péssima noção de que a vida é plástica. Nada é meramente fiel aos parâmetros, pois sorri dos outros com tal facilidade que mexe todas as rugas assim do nariz até a boca. Boca de lábios finos numa bossalidade sem disfarce. Existe sim um outro lado dela, mas nem todos tem acesso. Esse outro lado é maternal, todavia ela ainda não sabe que é o lado mais bonito. Sem cortinas, sem fachada, uma singela criatura. Uma bela mulher de corpo escultural, como dizem: tudo em cima. Mas sempre se trai quando subtrai da sociedade o superficial. É tudo socialmente perfeito que às vezes é insensível e imoral. O mundo é mesmo dela. 

Nadar

Entrando na piscina
Os ouvidos mergulhados em silêncio
As braçadas e os pensamentos
A meditação e o mergulho

Dói

  Em casa me dói a alma a tua anti-presença Que me deixa sentir a dor da ausência Palavra mais falada  é o silêncio Mudez que faz o tempo co...